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Retrofit

Por Que o Retrofit Se Tornou Essencial?

Urbanização, escassez de terrenos, envelhecimento do estoque imobiliário e exigências ambientais transformaram a requalificação de ativos em competência estratégica.

Retrofit

A capacidade de requalificar ativos deixou de ser uma alternativa técnica para se tornar uma competência estratégica.

Visão geral

A ascensão do retrofit não é resultado de uma tendência passageira do mercado imobiliário. Trata-se de uma resposta estrutural a transformações econômicas, urbanas e demográficas que vêm redefinindo a forma como cidades, empresas e governos lidam com o ambiente construído. Em diferentes partes do mundo, a discussão sobre requalificação de ativos deixou de ocupar uma posição periférica para assumir papel central nas estratégias de desenvolvimento urbano, eficiência operacional e sustentabilidade.

As projeções das Nações Unidas indicam que a população urbana global deverá aumentar em aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas até 2050. O Brasil já vive uma realidade ainda mais avançada nesse processo. Segundo o IBGE, mais de 84% da população brasileira reside em cidades, percentual que coloca o país entre as nações mais urbanizadas do mundo. Em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, a urbanização supera 95%, evidenciando um cenário em que a atividade econômica, a geração de empregos, a circulação de pessoas e a demanda por infraestrutura estão fortemente concentradas em territórios consolidados.

Essa dinâmica produz um efeito inevitável. Quanto maior a concentração urbana, maior a pressão sobre a infraestrutura existente. Diferentemente do que ocorreu durante boa parte do século XX, quando a expansão horizontal das cidades parecia ilimitada, os grandes centros econômicos contemporâneos enfrentam restrições cada vez maiores relacionadas à disponibilidade de terrenos, capacidade de mobilidade, custos de implantação de infraestrutura e sustentabilidade ambiental. Em muitos casos, a expansão urbana deixou de ser a alternativa mais eficiente. A atenção passou a se voltar para algo diferente: como utilizar melhor aquilo que já foi construído.

Esse movimento é particularmente relevante porque uma das características mais valiosas de um ativo imobiliário não pode ser reproduzida rapidamente: sua localização. Ao longo de décadas, determinados territórios acumulam infraestrutura de transporte, oferta de serviços, conectividade, densidade empresarial, acesso a mão de obra qualificada e presença de instituições estratégicas, criando ecossistemas urbanos que levam anos para serem consolidados. Quando um edifício localizado em uma dessas regiões se torna obsoleto, o problema raramente está no território. Na maioria das vezes, a questão está na incapacidade daquele ativo acompanhar a evolução das demandas contemporâneas.

Ao mesmo tempo em que as cidades enfrentam restrições de expansão, o mundo convive com o envelhecimento acelerado do estoque imobiliário. Nos Estados Unidos, estudos indicam que mais de 75% dos edifícios que estarão em operação em 2050 já foram construídos. Na Europa, em cidades como Londres, Paris, Amsterdã e Berlim, uma parcela significativa dos ativos foi desenvolvida décadas ou até séculos atrás. No Brasil, grande parte dos edifícios corporativos que ajudaram a consolidar os principais polos econômicos do país foi desenvolvida entre as décadas de 1970 e 1990, para uma realidade em que eficiência energética, conectividade digital, automação predial, flexibilidade de ocupação e experiência do usuário tinham importância muito menor do que possuem atualmente. O resultado é o crescimento da chamada obsolescência funcional: a estrutura física continua presente, mas sua capacidade de atender às necessidades do mercado diminui progressivamente.

A obsolescência funcional produz impactos que vão muito além dos limites do próprio imóvel. Estudos publicados por organizações como McKinsey, Urban Land Institute e Deloitte demonstram que a qualidade do ambiente construído passou a influenciar diretamente indicadores relacionados à produtividade, atração de talentos, retenção de empresas e competitividade territorial. Edifícios deixaram de ser apenas estruturas físicas. Eles se tornaram plataformas capazes de potencializar ou limitar a geração de valor dentro de um determinado território.

Outro fator é a evolução das exigências ambientais. Segundo a International Energy Agency, os edifícios respondem por aproximadamente 30% do consumo global de energia e cerca de 26% das emissões relacionadas à operação do ambiente construído. Preservar parte significativa de uma construção, aproveitando sua infraestrutura e reduzindo a necessidade de novos materiais, tornou-se uma estratégia cada vez mais alinhada às metas globais de sustentabilidade. Soma-se a isso a transformação dos modelos de trabalho: a digitalização da economia e as mudanças ocorridas após a pandemia redefiniram a forma como empresas utilizam seus espaços físicos, e o retrofit surge como ferramenta de adaptação capaz de conectar estruturas existentes às exigências de uma nova economia.

A convergência desses fatores ajuda a explicar por que o retrofit se tornou uma das práticas mais relevantes do mercado imobiliário contemporâneo. Mais do que atualizar edifícios, ele responde a uma questão fundamental do século XXI: como adaptar o patrimônio construído às demandas futuras sem desperdiçar os recursos, a infraestrutura e o valor territorial acumulados ao longo das últimas décadas.